O Surgimento de uma Terapia Eficaz no Combate aos Traumas

Um tratamento cada vez mais popular chamado EMDR utiliza uma técnica pouco convencional. Mas cada vez mais psicólogos estão adotando isso.

David Coates está sentado no consultório do seu terapeuta; segura um sensor que vibra alternadamente em cada uma das mãos, enquanto descreve a última vez que viu a mãe. Ela lhe dizia que ele a estava assustando. Em um surto de raiva misturado com drogas, ele bateu em uma parede e quebrou uma moldura. Ela fugiu e disse-lhe que, se ele estivesse em casa quando voltasse, ela chamaria a polícia. Foi a última vez que eles se falaram. Em alguns meses, ele estaria na prisão e ela morta de câncer de mama. Enquanto falava, Coates (tatuador que morava perto da cidade de Boulder, no Colorado) manteve parte de sua atenção nos aparelho que continuava a vibrar.

Coates estava participando de uma sessão de dessensibilização e reprocessamento dos movimentos oculares (EMDR), uma forma de terapia na qual um paciente revive um evento traumático enquanto acompanha um estímulo que se alterna de um lado para o outro. Seguir visualmente os movimentos de vai-e-vem das mãos de um terapeuta diante dos olhos do paciente era a forma original do EMDR, mas outros estímulos foram introduzidos nos últimos 20 anos, como a vibração tátil. Entre dispositivos de mão eletrônicos e barras de luz LED, alguns terapeutas do EMDR empregam aparelhos elaborados. Mas há uma constante: o cliente recorda algum trauma específico em conjunto com uma estimulação bilateral.

O EMDR é praticado por uma multidão crescente de terapeutas devidamente credenciados para essa prática. Essa abordagem de terapia tem sido endossada até por celebridades e circula bastante nas redes sociais. Embora seus defensores digam que isso ajuda a neutralizar os gatilhos e os impactos fisiológicos do trauma, ninguém sabe ao certo como funciona.

“Não sabemos exatamente o que acontece no cérebro durante uma sessão”, afirma Robbie Dunton, diretora administrativa do Instituto EMDR que supervisiona o treinamento de terapeutas no processo. “As pessoas têm teorias diferentes sobre o mecanismo neurológico, mas existem tantos estudos mostrando a eficácia que o EMDR ganha cada vez mais aceitação no mundo psi”.

Coates cresceu em uma área tomada por gangues em Fresno (Califórnia) e desde a adolescência lida com a dependência em meta-anfetamina injetável. Ele foi eventualmente condenado por roubo. “Meu trauma mais profundo é decorrente de estar preso enquanto minha mãe falecia”, disse ele. “Não tive a chance de abraçá-la. Não tive a chance de pedir perdão pelas coisas terríveis que fiz e disse”.

Ele não tem sido capaz de pensar na perda sem se tensionar e ficar mentalmente paralisado. Quando ouviu falar do EMDR em seu círculo de recuperação de dependência química, decidiu tentar. Após quatro das oito sessões planejadas, o sentimento de tensão começa a mudar. “Parte da terapia é que ela tenta me fazer realmente entender meus gatilhos fisiológicos”, disse Coates sobre seu terapeuta do EMDR. “Se é tristeza ou arrependimento, eu consigo sentir isso profundamente no peito.”

A psicóloga Francine Shapiro teve a ideia inicial do EMDR no final dos anos 80, quando se deu conta de que mover os olhos de um lado para o outro ao longo de uma caminhada pelo bosque a ajudou a aliviar o desconforto de lembrar de recordações traumáticas. Intrigada, ela sistematizou a técnica através de ensaios clínicos iniciais, a partir de 1989.

Alguns estudos no final dos anos 90 de pequenos grupos de participantes mostraram-se promissores para o método: em um estudo realizado em 1997 com 66 pessoas, cerca de metade das quais diagnosticadas com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), identificou uma redução de 68% nos sintomas por meio do EMDR. Outro grupo apresentou uma redução de 90% dos sintomas em vítimas de agressão sexual, quando comparado a um grupo de controle que não recebeu tratamento.

Dunton, que também é colega de Shapiro, disse que as duas usaram o EMDR em Israel e na Europa antes de trazê-lo de volta aos EUA. Agora, o Instituto (EMDR Institute) tem um calendário de workshops repleto, ministrado por uma equipe de treinadores que certifica terapeutas no EMDR em todos os continentes. Eles não têm uma contagem exata daqueles que são certificados pelo EMDR, mas Dunton disse que encontra-se nas centenas de milhares.

Isso não significa que já dominem a neurociência envolvida. “Sou a primeira a admitir que não sabemos exatamente como funciona”, afirma Dunton. “Mas sei que simplesmente funciona.” Ela viu o tratamento aliviar os sintomas de TEPT inúmeras vezes: “Os pacientes muitas vezes chegam com um trauma onipresente e muita ansiedade. O EMDR ajuda na quebra das sensações e experiências que eles revivem constantemente, as lembranças do passado interferindo no presente”.

Uma série de hipóteses têm sido desenvolvidas a partir do EMDR. Alguns dizem que o foco bilateral pode promover no cérebro um estado REM, o estágio do sono (movimentos rápidos dos olhos) associado ao processamento de memórias. Outros sugeriram que a tarefa mental de acompanhar os estímulos bilaterais impede o alarme fisiológico que pode tomar conta do corpo e a mente quando uma pessoa é ativada por uma lembrança do trauma, permitindo que os pensamentos e as emoções relacionados ao trauma sejam processados adequadamente. Outra hipótese é que observar os estímulos neutros entre lados esquerda e direita pode aumentar a comunicação entre os hemisférios do cérebro. Shapiro sugeriu ainda que, devido à estimulação bilateral, os recursos mentais utilizados para manter um horror na consciência são empregados de outra forma: “a memória se torna menos viva, menos completa e menos emocional”.

Em 2008, um relatório do Institute of Medicine afirmou que eram necessárias mais pesquisas para determinar a eficácia do EMDR, mas desde então o ceticismo dos universos psicológico e médico se arrefeceu e o tratamento ganhou apoio da Associação Psiquiátrica Americana, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, da Organização Mundial de Saúde e do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido.

Em casos simples, com trauma isolado e bem definido, o tratamento pode ser estruturado em aproximadamente oito sessões. Na primeira delas, o terapeuta procede a um levantamento da história clínica, dos sintomas e avalia a memória traumática a ser trabalhada. “É uma consulta típica”, disse Lynn Lauria, uma terapeuta no oeste de Nova York que pratica o EMDR. “Também estou decidindo se o EMDR é apropriado para esse caso particular.” Na segunda sessão, o terapeuta explica a técnica, incluindo os estímulos bilaterais (movimentos das mãos ou estímulos vibratórios por aparelhos ou sonidos auditivos) e um “sinal de parada”, caso a lembrança da dificuldade passada se torne muito intensa.

Na terceira, terapeuta e paciente desenvolvem um plano de ação: ambos definem qual trauma querem tomar como alvo; o paciente evoca a imagem mais nítida associada a essa memória (como a memória que Coates tinha de sua mãe saindo de casa enquanto ele olhava para a foto quebrada na parede). O cliente declara uma crença negativa decorrente dessa memória e os dois criam uma opinião positiva para substituí-la como resultado do reprocessamento.

Nas três sessões seguintes, terapeuta e cliente revisitam a memória traumática, bem como as imagens, emoções e crenças associadas a ela, enquanto usam os estímulos bilaterais. Quando o cliente não mais relata sofrimento ao se lembrar da memória-alvo, é convidado a pensar sobre a crença positiva identificada no início da sessão.

A oitava sessão em geral é um resumo, uma síntese do trabalho feito, embora para muitos pacientes com vivências traumáticas repetitivas a terapia dure mais tempo para e elaboração dessas recordações.

Lauren Withrow, uma veterana do Marine Core perto de Tyler, Texas, passou por um tratamento de oito sessões após uma tentativa de suicídio. Withrow sofreu de TEPT não relacionado ao combate por anos. “Eu costumava dormir ao lado da porta porque esperava que alguém fosse invadir nossa casa e nos machucar”, disse ela. (A fonte original de seu trauma ela só compartilha com seus terapeutas, ela disse.)

No ano passado, ela estava cuidando de suas duas filhas e trabalhando como repórter e fotógrafa para um jornal de uma cidade pequena. Enquanto fotografava o time de futebol da escola, o pensamento de que devia se matar entrou com força em sua mente. “Não foi algo racional e não se parecia com nada que tivesse acontecido comigo antes”, disse ela, “mas agi dentro de algumas horas”.

Após sua tentativa, Withrow passou de uma unidade de terapia intensiva para uma ala psiquiátrica em um hospital local da Administração de Veteranos. Ela temporariamente cedeu a guarda física de suas filhas, ambas adolescentes, a outro membro da família. Então ela ouviu falar sobre o EMDR por meio das mídias sociais. Durante oito sessões, ela e seu terapeuta tentaram desarmar a memória gatilho de estar na UTI e informar às filhas que havia tentado se matar.

Withrow e seu terapeuta usaram uma variação da troca de crenças negativa / positiva. Eles estão tentando eliminar sua crença de que a tentativa de suicídio significa que ela seja uma “mãe terrível”. Em vez disso, eles trabalharam para elaborar uma “memória futura”, na qual ela imagina uma cena específica em um futuro ideal: “Eu tento me ver quando nos reconectamos e estou com minha filha mais nova”, disse Withrow.

Embora as reações causadas pelo TEPT possam parecer erráticas e irregulares para pessoas de fora, Withrow diz que o efeito é como um algoritmo previsível de computador. Durante meses, quando ela pensava em suas filhas, um programa era realizado: ela sentia repulsa, culpa e fracasso. Isso significava que ela não conseguia se concentrar para descobrir como se reconectar com as meninas.

Agora ela é capaz de imaginar um futuro juntas, felizes  com um relacionamento normal de mãe e filhas. “No jeito como eu pensava quando sofria de TEPT, havia um padrão”, disse Withrow. “Agora, há uma falha na programação que impede a conclusão automática desse código”.

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